set
16
2019

A verdadeira história do 16 de setembro de Paramirim – Por Domingos Belarmino

A verdadeira história do 16 de setembro de Paramirim

A história de Paramirim seria outra, não fosse o dedão do Cel. Liberato José da Silva impondo sua autoridade de Comandante Superior da Guarda Nacional com sede na Comarca de Minas do Rio de Contas para revogar a Lei 1.849, de 16 de setembro de 1878, assinada pelo então presidente da província da Bahia Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo ( Barão Homem de Melo ), elevando a sede da freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Morro do Fogo à condição de Vila com o possante nome de Industrial Vila de Água Quente.

Uma façanha e tanto, diga-se de passagem, para época, até porque o referido postulado elevatório nasceu do escopo do Padre João Paranhos da Silva. Vigário titular da freguesia de Nossa Senhora do Carmo e ocupante de uma cadeira pelo Partido Conservador na Assembleia Legislativa Província que votara e aprovara a lei sem constrangimento algum.

Coisas da política suja dos coronéis que mandavam e desmandavam nos governos provinciais pela força que as patentes federais lhes conferiam, ensejando histórias difíceis de se explicar pela complexidade dos fatos e as nuances sociais que delas transbordam, ora como atenuantes, ora como lanças pontiagudas a intimidar a população, através dos punhais reluzentes cinicamente ostentados sob a casaca de quem se encontrava no puder. Uma supremacia deveras inusitada, baseada no princípio de que o cel. tudo podia fazer, como de fato o fez. A lei 1.849 foi revogada.

Liberato, homem cizudo, natural de Furnas, Município de Rio de Contas, quase rude, filiado ao Partido Liberal, dono de um império invejável , herdeiro-mor de várias terras alforriadas, inclusive as de Fazenda Água Quente, onde nasceu a cidade desse nome, por isso, considerado senhor absoluto de tudo e de todos pela sua empáfia e o.prestigio que gozava como comandante superior da Guarda Nacional, corroborado pelo seu partido.

Mas, a povoação de Água teve na segunda metade do século XIX, precisamente a partir de 1870, um outro líder de índole totalmente diferente do seu figadal inimigo. O Padre Paranhos. Um homem dócil, da tribuna, culto, atitudes pacíficas, filiado ao partido
Conservador, autor do projeto de elevação da Freguesia de Morro do Fogo à condição de Vila, um projeto por ele sonhado e defendido na Assembleia Legislativa Provincial. Aprovado sim, mas com duração efêmera.

Por conta dessas atitudes tão opostas começou a se costurar uma constrangedora situação de inimizade entre os dois líderes nutrida pela inveja que o Cel. devotava ao pároco em função dos benefícios conquistados.por este para a vila. O padre queria a emancipação, o Cel não a aceitava por caprichos próprios.
Claro, não queria dividir o seu prestígio com ninguém, muito menos com o seu adversário.

Uma inimizade descrita e narrada em diferentes episódios publicados nas cartas do Vigário com o título Negócios da Vila de Água Quente, culminada com a publicação da Resolução 2.175, de 20 de junho de 1881 pela qual ficou revogada a lei 1849, de 16 de setembro de 1878, que elevara a povoação de Água quente, desmembrada do território de Minas do Rio de Contas, a importante categoria de Vila. Um sonho desfeito que a grande maioria hoje comemora nas não sabe o significado. Fazer o que?

Como comemorar uma emancipação que ficou apenas no papel. Como reverenciar os efeitos de uma lei que foi categoricamente revogada sob os arrepios da própria lei. Não quero alimentar a polêmica. Por que a polêmica existe no entendimento de todos. Contra fatos na há argumentos. Fico apenas de soslaio vendo a banda passar. Pior que isso, estamos repassando o equívoco às novas gerações, sem. o devido conhecimento de esclarecer os erros e expor a verdade.. Até porque a verdadeira história poucos aceitam. A lei de 16 de membro de 1878 não vigorou nem atingiu as prerrogativas, infelizmente.

Naquela tarde noite de 17 de junho de 1881, ao desapear de sua possante mula, após quase um mês de exaustiva viagem a negócios na capital da província ” o homem do penacho ” meteu a mão no jornal, erguendo bem alto um papel, exclamando ” qual Vila qual nada” o frade perdeu a batalha.” Eu sou o cel Liberato,! Quem manda nas minhas terras sou eu. ”

Naquela tarde noite, houve muitos fogos, muitas garrafas de vinho e aguardente.rolaram Muita comilança. também. Houve brigas na praça. Homens de bem se engalfinharam, tiros de garrunchas e revólveres iluminaram o vazio da amplidão, o tenente Cardoso perdeu a manga do paletó e o cunhado do vigário ganhou um tiro de raspão no ombro. Uma noite memorável para os liberais. Uma noite horrível, para os adeptos da liberdade., padre Paranhos perdeu a batalha. Não havia mais o 16 de setembro, nenhuma razão a mais para comemora-lo.

Por essas e outras razões, o 16 de setembro deve ser repensado. Ninguém comemora o aniversário de um aborto. Apesar de publicada, a lei 1.849 foi revogada quase três anos depois de sua publicação. Nem por isso o município assumiu a suas prerrogativas. Não houve Câmera de Vereadores ou Conselho e os cargos não foram reclassificados. Essa é. a verdadeira história do dia 16 de setembro. Poucos sabem conta-la. Nem por isso deixa de ser a história real.

Domingos Belarmino da Silva. 141 anos depois.

Fonte: Facebook.

Deixe um comentário usando sua conta do Facebook




Deixe um comentário usando o Formulário do Site