fev
6
2014

Texto de Domingos Belarmino sobre a Família Ramos

Uma foto postada recentemente no Site Focado em Você me estimulou a fazer um pequeno comentário ao conteúdo que compõe a sua legenda por sinal muito apropriada ao contexto.

O autor do site foi muito preciso ao afirmar que a história de cada pessoa ou de cada família ajuda a contar a história de uma cidade. Até mesmo de uma nação, acrescento eu. A história da humanidade nada mais é do que uma somatória de fatos acontecidos em diferentes épocas com diferentes pessoas. Imagine a história da Chapada Diamantina, interior do Estado da Bahia, sem a biografia do Cel. Horácio de Matos, ou a de Paramirim, sem o concurso do Cel. Francisco Brasil.

Repare bem nas pessoas que aparecem estampadas na foto. Veja os costumes do início do século passado. O indispensável uso do paletó e do chapéu de massa com abas largas por adultos e crianças nas solenidades. Repare no vestido usado por D. Amélia B. Ramos. A espessura e o volume do tecido empregado na confecção. O tipo de penteado, os calçados e até mesmo a forma de se posar para as históricas fotografias. Veja também o olhar sisudo do Sr. Victalino, como se estivesse impondo a sua condição de chefe de família perante o fotógrafo. Atente-se para o jeito acanhado do garoto e a fofura da recém-nascida no colo do pai. São detalhes que dão crédito ao texto nos instigando sua interpretação.

A legenda, embora resumida, mais muito essencial, repito, nos remete também ao passado. Os próprios nomes de seus personagens (Victalino e Oscalino) não mais se justificam nos dias de hoje pela dinâmica da língua pátria, imposta pela modernização. São elementos culturais de uma época que há muito ficou para trás, mas que precisam ser vistos pelo prisma do entendimento e da valorização como rastro do seu tempo.

Sobre a família Ramos mencionada na notícia muito me interessa falar a seu respeito e até me sinto a vontade pelo fato da mesma ter vivido nas imediações da lagoa de Paramirim, onde também nasci e passei grande parte de minha existência. Daí as razões deste modesto comentário, já que o site nos remete à história local, objeto de minhas pesquisas nos últimos vinte anos de minha trajetória de vida.

Na rápida e proveitosa conversa que tive com Isa após a publicação da foto, fiquei sabendo que a sua bisavó paterna possuía sangue indigina. Acredito que sim, pois os Ramos de sua família pertenciam ao grupo dos Tapuios da Beira da Lagoa. Conheci vários deles com as suas características caboclas. Modo de falar, fisionomia, estatura, cor da pele e outros aspectos comuns à raça da Iracema.

Não é atoa, Dona Graça, o que os antigos diziam. Parente quanto mais longe mais puxa. Seus caracteres genéticos são heranças de seus ancestrais maternos que habitavam nas bordas da lagoa de Paramirim. com todo respeito, seus longos cabelos negros (repassados a Isa), causando admiração a todos, têm o DNA dos nativos da terra que hoje pisamos com muito orgulho.

Digo mais, seu bisavô materno chamava-se Rufino Teixeira Ramos. Residia próximo à foz do Riacho Catuaba. Não é do meu tempo, mas conheci a casa onde morava, junto da qual havia uma frondosa gameleira. A minha mãe era amiga da família è até tocamos parentesco com alguns de seus membros.

Sobre Victalino José Ramos, mais conhecido por José Ramos, a história nos revela, por deduções de alguns fatos, que ele partiu de Paramirim com a sua família rumo a são Paulo em setembro de 1922, ano do primeiro centenário da Independência do Brasil, fato este justificado pela foto tirada em 1923.

Conta-se que na véspera de sua partida fez um baile em sua residência para despedir dos amigos e parentes. Foi uma data de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Nessa mesma noite houve um crime em Paramirim, que ficou marcado na sua história pela crueldade de seus autores. Na madrugada seguinte Zé Ramos calçou as sandálias da longa e penosa viagem para Ribeirão Preto onde nasceu Maria de Lurdes que aparece na foto com vinte e três dias de nascida.

O destino quis que esta garota largasse o interior paulista e viesse morar na terra de seus pais, onde se casou e procriou a sua família da qual você é filha única. Muito lhe agradeço pela sua relíquia ter me inspirado esta narrativa, como também agradeço ao site. Assim é a história. Ela não é de ninguém. É de todos. É um patrimônio público. Você é a fiel depositaria dessa valiosa fotografia. Parabéns pela sua conservação. Muito obrigado.

Paramirim, 03 de fevereiro de 2014

Domingos Belarmino da Silva

Aperte aqui para ver a matéria da qual o texto faz referência.

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