set
3
2019

Uma história de amor ao próximo-distante

Desde 2016, um grupo de engenheiros voluntários vem trabalhando em um projeto de implantação de uma usina fotovoltaica – ou de energia solar – na Mansão do Caminho, Instituição de assistência social fundada, há 67 anos, por Divaldo Franco e Nílson de Souza Pereira, no Bairro de Pau da Lima, em Salvador. Tal iniciativa visa a reduzir os gastos da Instituição com energia elétrica e, adicionalmente, colaborar com as medidas de proteção do meio ambiente, mas esbarrou nas dificuldades geradas pelo custo alto de execução do projeto na época. Em 2018, o ítalo-canadense Giancarlo Chitto encontrava-se em visita à Instituição e interessou-se em conhecer mais detalhes do projeto. Coincidentemente, Adailton Gomes (meu marido), que integra a equipe de engenheiros responsáveis pela iniciativa, necessitou obter algumas informações de Rose Muzzi, primeira secretária da Instituição. Ela então resolveu apresentá-lo a Giancarlo e, desse “encontro de quinze minutos”, como este costuma dizer, nasceu o que viria a se tornar uma grande amizade entre ambos.

Em maio último, fomos a Vancouver, no Canadá, visitar familiares que lá vivem, e tive a alegria de também ser apresentada a Giancarlo, que de certa forma já considerava um amigo, pela admiração com que Adailton sempre se referia a ele. Amavelmente, ele nos convidou para conhecer a ilha onde mora e que abriga várias cidades, inclusive Victoria, capital da província de British Columbia.

Ao desembarcarmos na ilha, uma semana depois, Giancarlo já se encontrava a nossa espera para conduzir-nos, no automóvel que comprou 18 anos atrás, a sua morada, em um simpático edifício de poucos andares, na cidade de Parksville, uma das muitas existentes na grande Ilha de Vancouver. Logo de início, impressionaram-me sua vitalidade e a desenvoltura com que dirigia o veículo, típica das pessoas muito jovens – de idade ou de espírito, embora já esteja hoje com 84 anos. A aventura acentuou-se na parte da tarde, quando ele nos levou para visitar várias cidades da ilha, todas impressionantes pela elegância de suas casas, tranquilidade das ruas, organização e limpeza do espaço público. Em seguida, fomos conhecer a bela casa, cujo fundo dá para o mar, onde ele e Joan, sua esposa, viveram por longos anos.

Puxando esse fio da meada, a história de sua vida começou a vir à tona, durante as muitas e longas conversas que tivemos naqueles dias inesquecíveis. Ele contou-nos que tinha nascido na cidade italiana de Maranello, província de Modena, em uma família simples. Seu pai, Bruno Chitto, que era eletricista, faleceu subitamente, quando Giancarlo, o filho mais velho dos três, contava apenas 8 anos de idade, e os dois menores, Romano e Franco, seis e dois anos respectivamente. Tendo sido até então uma dona de casa, sua mãe, Ernesta Franchini, teve de passar a trabalhar arduamente em uma empresa, a fim de garantir o sustento da família. Entretanto, em 1952 ela também veio a falecer, ficando os filhos órfãos de pai e mãe. Na época, Giancarlo tinha 16 anos, Romano 12 e Franco, 10, e a solução então encontrada pelos familiares foi separar os irmãos, que passaram a ser cuidados pelos tios. Todavia, com os devastadores efeitos da Segunda Guerra Mundial e as dificuldades de toda ordem enfrentadas pela população do país, o tio que havia se responsabilizado pela criação de Franco, o caçula dos três, não mais tendo condição de sustentá-lo, viu-se forçado a entregá-lo aos cuidados de um orfanato, onde ele cresceu juntamente com tantas outras crianças oriundas de famílias socialmente vulneráveis.

Giancarlo, por sua vez, ao completar 18 anos e tendo cursado apenas o ensino fundamental, decidiu emigrar para o Canadá, sem saber falar inglês nem francês, as línguas oficiais do país, na esperança de encontrar um novo rumo para sua vida. Começava ali uma saga que já dura 65 anos, recheada de desafios a que ele chama, com seu otimismo e humor peculiares, de “minhas aventuras”. Como não tinha uma profissão definida, aceitava realizar os trabalhos mais diversos e em várias regiões do país. Algum tempo depois, mudou-se para o México, onde se apaixonou por uma moça, filha única, cujos pais tinham uma propriedade em Acapulco e lhe propuseram construir lá um hotel. A fim de adquirir experiência no ramo, migrou para os Estados Unidos, onde trabalhou em vários hotéis. Como não era possível lá permanecer sem possuir o visto para estrangeiros, e àquela altura o noivado já tinha sido desfeito, Giancarlo foi para Montreal, no Canadá, onde passou a trabalhar no Hotel Hilton. Surgiu, então, a oportunidade de ir tentar a vida nas Ilhas Bahamas, que ele “não tinha ideia de onde ficavam”, mas resolveu aceitar o desafio. Em seguida, mudou-se para a ilha de West End, na Grand Bahama e, juntamente com um amigo, em 1964 decidiu mudar-se para o Brasil, “em busca do Eldorado”, como fizeram tantos estrangeiros na época.

Começava então uma nova etapa de sua vida, marcada pela intensificação de seu espírito desbravador. Aqui arrendaram um terreno nos confins do Distrito Federal e, mesmo sem nenhum deles falar português ou ter experiência no ramo, montaram uma granja destinada à criação de galinhas. Em pouco tempo o amigo concluiu que não fora talhado para aquela atividade e retornou pra West End. Firme em seu intento de permanecer no Brasil, com o qual já tinha criado laços afetivos, Giancarlo associou-se a outro amigo, um agrônomo holandês. Tomaram um empréstimo bancário e investiram na plantação de abacaxi, até o sócio desaparecer, deixando-o sem dinheiro para continuar a atividade. Convidado para gerenciar um hotel na Ilha de Bananal, aceitou de pronto a proposta. Após um ano de trabalho e sem dinheiro no bolso, conseguiu uma passagem aérea em um avião da FAB e retornou para os Estados Unidos, onde mais uma vez não pôde permanecer, por não possuir o Green Card. Com a ajuda de um outro amigo, foi trabalhar em um hotel nas Bahamas, onde, em 1968, conheceu Joan, uma moça inglesa que seguiu para o Canadá, enquanto Giancarlo decidiu viver uma temporada em São Francisco, na Califórnia, de onde retornou para o Brasil, com a determinação de exercer a atividade de fotógrafo escolar, a qual finalmente lhe renderia um bom dinheiro.

Com a vinda de Joan para o Brasil, em 1971, Giancarlo abandonou a fotografia e, com a concordância dela, compraram uma fazenda, onde cultivaram arroz, feijão, milho e mandioca, até se decidirem a tentar um negócio mais rentável. Tomaram um empréstimo bancário e passaram a investir na criação de bicho da seda. No entanto essa atividade exigia um trabalho intenso e os resultados não foram satisfatórios. Por insistência de Joan, arrendaram a fazenda e voltaram para o Canadá, onde Giancarlo passou a viver “com o corpo em Toronto, enquanto a cabeça e o coração estavam no Brasil”.

Quando retornou a nosso país, em 1978, para vender a Fazenda, Giancarlo tornou-se amigo de Loures, um escultor que produzia suas obras em pedra sabão e interessou-se em ir para o Canadá desenvolver essa atividade. Chitto então resolveu comprar um container de pedra sabão e artesanatos brasileiros e enviar para Vancouver. Joan reagiu mal a mais essa aventura comercial do marido e, somente mais tarde, ambos reconheceriam que, enfim, aquela havia sido uma iniciativa acertada. Durante 22 anos, ele viajaria anualmente para o Brasil, com a finalidade de comprar pedra sabão e artesanatos e revendê-los no Canadá.

Uma dessas viagens coincidiu com a data de realização do Primeiro Congresso Espírita Mundial em Brasília, onde conheceu Divaldo Franco, que alguns anos depois e a convite do casal, os visitaria em Vancouver. Na mesma época, travou contato também com César Reis, diretor das Casas Nosso Lar, que o levou para visitar uma instituição, próxima a Brasília, que atendia a crianças carentes. “Fiquei tão impressionado com o que vi, que quando voltei para o Canadá quis fazer algo para apoiar esse tipo de assistência no Brasil”, contou-nos Giancarlo. Impulsionado por esse desejo, em 1996 e com a colaboração de Joan, fundou a Fabiano of Christ Benevolent Society. A primeira iniciativa da Fundação foi enviar para o Brasil containers de roupas, destinadas a famílias pobres, mas diante dos problemas que tiveram com a Alfândega, tomaram a decisão de passar a mandar apenas quantias em dinheiro para apoiar certos programas desenvolvidos por algumas instituições de assistência social.

Em 1999, Giancarlo teve a oportunidade de conhecer a Mansão do Caminho, maravilhando-se com os muitos trabalhos assistenciais realizados pela Instituição, à qual passou a destinar os recursos de que dispunha. Em 2008, ao saber que o projeto de construção de uma casa de parto natural na Mansão do Caminho encontrava-se parado por falta de recursos, Giancarlo propôs a sua esposa venderem a linda casa onde moravam em Parkesville, na Ilha de Vancouver, e doar o dinheiro para essa finalidade. Diante das incertezas de Joan, decidiu-se que a casa seria vendida e cada um ficaria com metade do valor. Assim, ele pôde repassar o montante que lhe coube para a Sociedade Fabiano de Cristo, que foi transferido para a Mansão do Caminho e utilizado na conclusão do Centro de Parto Normal Marieta de Souza Pereira, inaugurado em agosto de 2011.

Após a venda do imóvel, o casal comprou um apartamento, no qual passou a morar. Com o falecimento de Joan em 2017, aos quase 84 anos de idade, em decorrência de um câncer, Giancarlo vendeu o imóvel, destinou o dinheiro, mais uma vez, à Fabiano de Cristo e passou a viver sozinho em um apartamento alugado, de quarto e sala, na mesma cidade de Parksville, e manter-se franciscanamente com o valor da aposentadoria que recebe. Como desejava fazer algo em memória de Joan, a companheira à qual se refere sempre com enorme carinho, logo após sua partida ele entrou em contato com Divaldo Franco para saber se havia alguma obra sendo executada na Mansão do Caminho e porventura necessitando de recursos. Havia, sim, o projeto de construção de um prédio, para sediar o Colégio Nilson de Souza Pereira, que possibilitaria a jovens carentes cursar o ensino médio. Após análise da viabilidade da obra, os Diretores da Mansão do Caminho optaram pela reforma de um prédio já existente e, mais uma vez, a Fabiano de Cristo concordou em financiar a obra.

Quando Giancarlo recebeu o projeto arquitetônico de construção das novas portarias da Mansão do Caminho, ainda estávamos em sua casa, e pudemos testemunhar seu entusiasmo. Passou o restante do dia analisando, com Adailton, cada detalhe e sonhando em vê-las prontas o mais rápido possível, pois como nos disse várias vezes, “agora ele está vivendo uma corrida contra o tempo e torcendo para conseguir ainda colaborar com muitos projetos que possam assistir sobretudo a crianças e jovens”. Decidiu, então, que a Fabiano de Cristo enviaria o montante necessário para a construção das portarias, bem como para a instalação da usina de energia solar e abertura dos poços artesianos. E assim o fez, com a satisfação contagiante de quem conhece a importância da solidariedade.

Recentemente, Giancarlo manifestou à direção do Colégio Nílson de Souza Pereira seu interesse em continuar ajudando a propiciar aos jovens pobres uma educação de qualidade, que os prepare para um mundo que exige cada vez mais uma boa formação. Nesse intuito, propôs a ajuda financeira da Fabiano de Cristo para ciar um trabalho de reforço escolar para os alunos do ensino médio que porventura estejam enfrentando dificuldade para acompanhar o curso de certas disciplinas. A atividade, para sua alegria, já está sendo implementada.

Certo dia, durante nossa estada em sua residência, percebi que ele estava preparando o café da manhã e me aproximei da cozinha, na tentativa de ajudá-lo. Então ele me olhou e disse: “Deve ser triste para você ficar aqui, não é?”. Entendi que estava se referindo ao fato de que ele e Adailton levavam horas conversando, enquanto eu, para deixá-los à vontade, às vezes me recolhia ao quarto e dedicava-me à leitura de algum livro instalado em meu e-book. Ao ouvir tais palavras comecei a chorar de emoção e lhe respondi: “Ainda há pouco, indo do quarto para o banheiro, disse para mim mesma: estes dias que passamos aqui foram não apenas os melhores de nossa viagem a Vancouver até o momento, mas alguns dos melhores de minha vida!”. Ao ouvir minhas palavras, ele encheu os olhos de lágrimas, olhou-me novamente e calou-se. Dei-lhe um abraço de agradecimento pela lição de desprendimento e preocupação sincera com o próximo-distante que dele havia recebido e fomos tomar o café com torradas que ele havia preparado com o mesmo carinho que nos dedicou em cada minuto que passamos em sua companhia na Ilha de Vancouver.

Naquela viagem, ainda ouviríamos dele a frase que melhor reflete seu estado de espírito perante a vida e justifica suas admiráveis atitudes: “Tenho tudo que preciso. Não sinto falta de nada!”. Então eu lhe disse que sua história precisava ser escrita, para que outros pudessem conhecê-la. Tenho consciência de que aqui cumpri apenas em parte meu compromisso, pois em vez de um artigo sintético, como o fiz, sua trajetória incomum mereceria ocupar as páginas de um livro inteiro!

Salvador, julho de 2019

Marinyze Oliveira

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