Estes últimos meses foram um período muito turbulento para nossa cidade, acontecimentos tristes, perdas, abusos, loucuras, fatos que acabam por nos mostrar o tamanho ínfimo de nós humanos frente à abundância das peripécias da vida. Basta um estalar de dedos, e o que foi já não se é mais. É muito duro olhar a cadeira e constatar que aquele que ali se sentava jamais voltará a se acomodar, jamais trocaremos conversas, para sempre se perdeu os sonhos. O vazio que como uma densa e negra nuvem passa a envolver o coração acaba por nos tornar num novo indivíduo. A alegria dos lábios perdeu-se deixando um mero sorriso tímido; o brilho intenso do olhar já não fascina tanto; a beleza do ambiente ofuscou-se na confusão das perdas e das muitas interrogações. Um dia foi daquele jeito, hoje, só retalhos de momentos vividos, lembranças vivas de momentos inesquecíveis. O rio da vida segue destemido seu curso, em suas margens os cadáveres fruto da sua estupenda e magnífica força.
Falar na partida quando milhares já tentaram primeiro parece morto o que poderemos tentar expor, se não a quietude da morte apenas as mesmices proferidas nos funerais. Acrescentar o quê quando tentamos explicar o fim. Muitos desejam consolar sem saber que os lugares comuns dos quais falam apenas servem para afagar um pouco dos seus próprios medos. Palavras são lindas, mas a realidade supera toda a poesia. A dor deixada aos entes e amigos inimagináveis talvez para aqueles que sem saber negligenciaram as regras da vida acaba produzindo um vácuo entre a loucura e a razão.
O homem de hoje não teme, ele pensa, sem saber pensar, que a sua volta tudo pode acontecer menos a si mesmo; que o caixão serve a todos os mortais, menos a si que tem uma vida eterna; santo engano, pura ignorância. Pisa fundo no acelerador, ou bebem todas e pega no volante, choca-se de frente com vidas que não partilhava das mesmas demências, acaba por arrasar famílias, a levar dores aos seus pais e familiares. Quando se dão conta o laço da vida apenas se sustenta por uma fina linha, basta um rufar leve de vento para tudo se esvair. Tínhamos muito, ou achávamos ter, passado, são pétalas soltas ao chão.
Neste mundo pensante, onde a comunidade necessita das leis para não desmoronar, relegar a filosofia a uns poucos intelectuais, acreditamos não ser esse um porto seguro, pois o homem que não raciocina sobre as nuances da existência estará fardado a falhar por ignorar as causas de seus possíveis deslizes. A juventude anda perdida em meio à macambira, xiquexique e pedregulhos, corre desvalida sem saber a direção, fere-se, machuca-se, tanto ao próprio ser como aos outrem. As pessoas precisam conhecer o valor real de estarem vivas. Qual a sua importância perante o mundo, para com os amigos e entes. Conversar e procurar respostas para os mistérios que envolvem a vida. Sem a filosofia o homem não passa de um animal qualquer, dotado de recursos, que usa dos extintos, em vez da razão, por desconhecer o poder do discernimento. Esse animal social é bem mais perigoso do que o jacaré, o tigre ou até mesmo o leão, pois abusando das suas propriedades ataca sem estar coagido, ele mata por matar, um verdadeiro demônio vivo.
Nós temos o habito de cair em planto quando a cura parece distante. Prevenir pondo-se em um patamar que nos evite aborrecimento para depois não necessitarmos de um remédio milagroso. A vida por si só já é um tremendo risco, uma simples queda poderá ser suficiente para gigantescas transformações. Mas gostamos de correr risco, adoramos o perigo e com o andar dos dias, mais cedo ou mais tarde, a luz se apagará. As pessoas quando se colocam em risco sequer imaginam os aborrecimentos que deixarão de heranças aos seus chegados. Ignoram por completo todas as maravilhas que os cercam. Esquecem do amanhecer florido, romântico; não se dão conta do sabor da chuva; do vento que percorre o rosto; das conversas com os amigos; dos filhos a correrem aos seus braços. Pede-se muito por não saber pensar. A massificação dos valores, a mesmice que nos obrigam os canais de televisão acaba por tornar a sociedade num teatro onde seus atores não passam de marionetes. Dançamos, comemos, vivemos um mundo imposto. Nesse turbilhão perdemos nossa identidade e muitos a razão de se viver, sobra-nos o caos.
Temos uma vida, comparo-a a um aperto de mãos, de acordo aos atos esse laço pode ir se desfazendo aos poucos, ou de forma repentina e dolorosa. A dor da morte sobra aos que vivem, se o morto soubesse do estrago que acabou deixando para muitos ele dificilmente seria imprudente ao ponto do que fez. A loucura domina o mundo, o perigo corre por beco, esquinas, florestas, não basta apenas sabermos viver, precisamos de sorte, para assim, podermos escapar de muitos atritos; mas quem abusa da vida, sem saber corre contra a sorte e busca o perigo. Como um raio que desce e tão logo desaparece, rápido e bombástico, virou cinza, acabou.
Luiz Carlos Marques Cardoso (Bill)
21/02/2010
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