Sombra maldita.

Olhar para a escuridão, tentar ver, enxergar uma fagulha por menor que seja onde nada possui corpo, ou no máximo algo volúvel como o gás, não é fácil, somos tomados por cegueira crônica, do mal que pode atacar de onde menos se espera. No espaço ínfimo de seis meses Paramirim foi acometida por dois inusitados assaltos a banco. Nossa querida cidade passou a ter mais uma estação, a estação “nebulosa das balas”, do medo, da pressão que agride o ímpeto e o psicológico de seus munícipes. O Rio de Janeiro, com suas manchetes loucas, de tão longe que a nós parecia à coisa de outro planeta, do nada surge a nossa porta fazendo-nos crer que a segurança das cidades pequenas, antes gabadas por muitos, sofra desse distúrbio de igual modo as capitais. Com o advento da Globalização o terror evolui em aspectos tecnológicos na mesma velocidade e proporção das demais áreas e hoje ninguém se ver livre dessa força.
Estava metido nos meus estudos quando recebi uma ligação de uma das minhas irmãs me alertando do assalto. Logo ouvir estouros, muitos por sinal, primeiro pareciam a tiros de revolver, logo vieram outros, esses de armas de calibre maior. Fui ate à rua a procura de notícias, nos semblantes das pessoas que trafegavam loucamente transparecia o medo. Muitos buscavam suas residências, outros, curiosos, iam de encontro à fruta para se saciar. Crianças deixavam a escola em prantos. Mães e pais corriam afoitos. Fez-me lembrar o Iraque, na ultima guerra, quando tocava a sirene para avisar que Bogotá seria alvejada por mísseis ianques. Um verdadeiro inferno. Só deixei o aconchego de meu lar por este se encontrar distante do centro do conflito, caso contrário, ficaria abaixado esperando o desfecho.
Estou já nas derradeiras páginas de um livro, esse expõe brilhantemente toda a saga de Lampião pelas terras da Bahia (Lampião na Bahia, de Oleone Coelho Fontes, 6° Edição). Virgulino Ferreira da Silva e seu bando de cabras, naqueles tempos remotos, não muito, pois estou a falar do século vinte, esse por sinal ainda quente na memória de tantos, atormentou com sua brutalidade de fera por anos a findo uma pá de cidades do interior baiano. Capitão Lampião, assim gostava de ser chamado, entrava nas comunidades do mesmo modo como os bandidos chegam para assaltar um banco, mudando-se alguns pontos. A violência existe desde quando o homem se intitula a tal. Olhe a Grécia, a própria Roma, Jerusalém no tempo épico de Jesus. Mas as Leis evoluíram e em certos países andar em estrada diferente da proposta pela Constituição tem como conseqüência o banimento da convivência social. Seguir os mandamentos propostos para que não haja convulsões, esse é o Contrato Social de “Jean Jacques Rousseau”. Nesse contrato as anomalias humanas devem ser recolhidas por querer ir contra o pacto assinado por todos que convivem na sociedade, ir em direção contrária acarretará em sansões. Todo humano assinou esse contrato ao ganhar de Deus uma oportunidade para nascer como Homo Sapiens. Querendo ou não, sabendo ou não, você, eu, todos assinamos esse Contrato, nossa assinatura estar representada por nós mesmos, não por alguns riscos ou um apanhado de letras.
Assim que fui alertado das cenas de horrores que tomavam o centro da cidade, de imediato veio-me a mente e a preocupação com as pessoas envolvidas. Parentes poderiam está no banco, amigos certamente estariam passando por maus bocados.  De fato, posteriormente fiquei sabendo que muitos amigos sofreram na pele tamanha loucura e apreensão. Colegas que trabalham na instituição almejada estavam logo após o ocorrido em estado de choque. Querendo ou não, as vidas desses jamais serão como antes. Nosso corpo possui um dispositivo de repulsa quanto à morte de presa, os animais irracionais sentem menos, há humanos que chegam a perder o juízo, fato acontecido com a mulher de um coronel que foi morto pelo facínora Lampião. Esse foi levado no pelo de animal tendo a mulher na garupa, os dois despidos a mando do rei do cangaço, para um povoado visinho, o homem foi sumariamente mutilado pelas punhaladas lentas do chefe atroz, a esposa foi poupada a pedido de um dos cangaceiros, porém após o macabro acontecimento jamais recobrou a consciência.
Nada impede que um dos integrantes da quadrinha leia esse texto, bem sabemos ser mais fácil um gigantesco meteoro alvejar a Terra do que esse insignificante fato acontecer. Mas irei formular um pedido, não a eles, pois acredito que esses dificilmente se moldarão segundo as Leis, mas aos cidadãos da nossa sociedade que se deixam levar pelo dinheiro fácil. Contarei mais uma passagem da vida de Lampião: em um encontro com os Volantes (polícias) o irmão de Virgulino morre em conflito, almejado por balas. Lampião sente muito a perda e passa a aterrorizar movido pelo ódio quem cruzasse o seu caminho. Sabia que não tardaria em ter um fim igual ao do irmão e tantos outros amigos falecidos no cangaço. Aparentemente, possuir carros, mansões, aviões nos levam a crer que seja essa a real meta humana na vida; angariar tais bens de fato é bom, todavia há modos e meios certos para se conseguir tais objetos, entrar em conflito com a Constituição poderá antes mesmo de o intento acontecer herdar uma vala de indigente em um cemitério qualquer. Racionalizar as ações talvez seja a maior vantagem humana contra o extinto animal dormente, todavia vivo, que a depender da ocasião se aflora nas mais hediondas perversidades.
Nosso povo custa a perceber o grau de periculosidade envolvido em um assalto da proporção do que atingiu Paramirim no dia 5 de maio. As pessoas deixavam seus afazeres para ir presenciar os acontecimentos, infligiam todos os perigos que porventura poderia germinar daquela situação. Para o público aquilo era como está em um estúdio de cinema a céu aberto, a Rede Globo de Televisão gravava cenas de sua mais nova minissérie (Lampião o Rei do Cangaço). Alguns diretores de escolas, de modo irresponsável, deixavam seus alunos saírem à rua no momento em que os bandidos atiravam feitos loucos sabe-se lá para onde. As esquinas próximas ao Banco do Brasil eram disputadas a empurrões por pessoas que tentavam se atualizar quanto ao ocorrido. Deus foi generoso e nos privou de maiores dores, mas naquele momento o risco de ter perdido dezenas de vida foi colossal, simplesmente por infligir o bom-senso. Além de dificultar o trabalho da polícia os civis não buscaram em suas mentes qual o grau de perversidade das pessoas envolvidas diretamente no acontecimento.
Muitos membros da sociedade vaiam a Polícia, crítica, sem saber que agindo dessa forma pressionam os mesmos para atuarem de maneira equivocada. Em ocasiões como a ocorrida o melhor que se faça é não fazer nada. Os bandidos tinham reféns, fez desses escudos. Um ato impensado poderia ocasionar em dezenas de mortes. Nossos policiais desprovidos de armamento a altura daqueles em mãos dos bandidos seria, por que não dizer, um mero suicídio tentar heroísmo, sem contar na irresponsabilidade por expor um contingente de pessoas a possíveis riscos. O remédio é a prevenção, usar a inteligência da polícia para interceptar os grupos antes do fato ser consumado, porque após a doença implantada o melhor antídoto é esperar o tempo fluir e torcer para que não ocorram maiores dissabores.
Precisa o mais rápido possível ser realizado em nossa cidade uma mobilização pública em que se aborde temas nesse sentido para evitar traumas ainda piores. A ignorância frente ao perigo vem a ser o maior risco o qual passa o nosso povo, que é muito bem informado pela mídia, parece, porém, não entender a mensagem. O Estado por adotar uma Constituição deve nos temos desta fazer cumprir o que se obriga. Todo Brasileiro tem direito a segurança. Como somos membros, sem distinção, do Contrato Social que cumpra cada ala com suas obrigações. O Governo atual da Bahia, na pessoa do Governador, por sinal, sua gestão está muito abaixo das expectativas, faz visão míope as mazelas do estado em que o acolheu como mandachuva. Todos nós assinamos o Contrato no instante da concepção, o Governador assinou outro assim que tomou posse. Querendo esse fugir as obrigações não estaria o mesmo deturpando o Contrato? Em caso de anomalia social que os levem a Justiça, assim aos bandidos, assim aos políticos, assim a qualquer cidadão, pois todos nós somos iguais perante a Lei, e as Leis são os únicos mecanismos com poder suficiente para manter a harmonia e a paz social. Palmas a Jean Jacques Rousseau.

Luiz Carlos M. Cardoso (Bill)
18/06/2009



Outros Textos

Uma Boa Iniciativa
De quem é a Água?
Uso da Água
Vamos Cuidar
Povo Vibrante é Povo Feliz
Placa Amarela / Advertência
Tradições
E o Tempo Passou
Estrada Longa
A Força do Sabio Pequeno
Quanto Vale uma Vida
Um Banco para Esperar
Acomodação Social
Água Salobra
Vamos Plantar
Agressão Ambiental
Como fora o nosso passado?
Balanço do Forró
Sombra maldita
Nosso maior Tesouro
Como anda o nosso Turismo.
Questão delicada
Semelhanças entre Obama e Dr. Júlio
Do céu ao chão em quatro anos




                                                                                                     Página Inicial