1808
Napoleão juntou em seu império boa parte da Europa, com tamanha força exigiu de D João VI que cortasse os laços com os ingleses. O Rei de Portugal estava cercado, de um lado Napoleão, do outro, a Inglaterra. Com medo e sem alternativa resolveu abraçar um velho sonho, antes que o exército de Napoleão entrasse no território português D. João e toda a sua corte fugiram escoltados pela marinha inglesa para o Brasil. Mais tarde, preso, Napoleão diria que D. João foi o único que conseguiu ludibriá-lo.
A corte portuguesa fugiu para o Brasil de forma precária, seus navios todos velhos não dispunham de conforto para a elite que ali levava. A viagem era longa e demorada, dependia muito das condições do clima, havia vezes que o vento cessava, os navios demoravam muito para romper pequeno percurso. A imundice tomava conta das embarcações, as mulheres tiveram que raspar todo o cabelo na tentativa de eliminar os piolhos. A família real estava dividida, como as viagens eram muito arriscadas fez dessa forma para preservar de um possível naufrágio. Por carência de vitaminas doenças eram freqüentes.
No meio do trajeto D. João pega a rota que o levaria primeiro a Salvador, enquanto que as demais embarcações seguiram rumando para o Rio de Janeiro. O Rei atracou em Salvador, houve uma grande manifestação popular, todos queriam ver o rei. A corte chegava ao Brasil escorraçada de Portugal, ao descer aqui grande foi a decepção. D. João já em terras brasileira decreta o fim da proibição que impedia que o Brasil comercializasse com outra nação senão com Portugal. A chegada da corte seria crucial para elevar nós ao que somos hoje.
Passado alguns dias em Salvador D. João continuou sua viagem até o Rio de Janeiro. Ao chegar houve muitas comemorações. Os primeiros dias que se seguiram foram de transformação. D. João ordenou que todas as residências trocassem suas janelas. A corte do rei precisava de recursos para se manter, muitos foram os impostos criados. O comércio começou a prosperar, produtos estrangeiros jorravam em grande abundância por aqui. A Revolução Industrial proporcionava essa entrada. A Inglaterra havia feito um acordo com D. João quando da vinda dele para o Brasil para ter exclusividade no comércio.
Abriu o primeiro banco do Brasil, começou a circular moeda, porém a Coroa com seus exorbitantes gastos sempre carecia de mais dinheiro para manter-se. Uma legião de pessoas vivia sobre o manto de D. João. Como forma de recolher recursos vendia títulos a quem pudessem pagar; vários foram os comerciantes de escravos que se viram intitulados como barão. Não demorou e o Banco entrou em declínio pela alta emissão de dinheiro.
A corte era imunda, o rei e a rainha demoravam meses sem tomar sequer um banho (hábitos da velha terra na época), suas roupas eram sujas, a de D. João por servir de compartimento alimentar, guardava coxas de frangos fritas para comer enquanto passeava pela cidade, o diferenciava dos demais reis do mundo. A cidade do rio era imunda, com o passar do tempo nomeou-se alguém para por fim na baderna e na sujeira reinante. Os escravos eram uma ameaça constante, pois com a grande quantidade bastava que se fizesse uma rebelião para acarretar em grande desconforto.
Enquanto o Brasil prosperava Portugal vivia no abandono e na penúria, rogava sempre pela volta do rei. D. João resistia o quanto podia. Mas o futuro do Brasil já estava selado.
A rainha Carlota Joaquina era uma mulher ambiciosa, de traços feios, obstinada e que amava o poder. Conspirou contra o marido mais de uma vez, tentou aplicar cinco golpes, esses todos fracassados. Filha de Carlos IV e irmã de Fernando VII (reis da Espanha), uniu no matrimonio com Dom João VI por conjuntura entre as duas nações, habito muito comum na época. O casal teve nove filhos num período de treze anos. Alguns historiadores comentam que Dom João não tinha certeza da paternidade dos últimos filhos. Carlota Joaquina morreu em 1830, viúva e vivendo no ostracismo em Portugal.
Dom João VI era príncipe regente, em 1816 tornou-se rei do Brasil e de Portugal. Um indivíduo medroso, ele tinha pavor de trovões e de caranguejos. Feio, obeso, de hábitos diferentes dos demais reis da Europa, não gostava de tomar banho. Chegou ao trono por acaso, a rainha Maria I havia enlouquecido e o irmão mais velho de Dom João, Dom José, herdeiro natural ao trono, havia morrido vitimado pela varíola. D. João viveu e morreu como rei, a despeito dos demais que tombaram diante Napoleão.
Enquanto D. João retornava a Portugal, Napoleão dava seu último suspiro, morreu na manhã de 04 de maio de 1821. D. Pedro I herdava uma nação anestesiada por três séculos de exploração colonial que inibia o empreendedorismo. Logo começaram as pressões para sair da monarquia e entrar e entrar na republica. A independência do Brasil sobre Portugal não demoraria a acontecer.
O livro que leva o nome de “1808 como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil”. Escrito por Laurentino Gomes. Editora Planeta do Brasil, ano 2007.
Por: Luiz Carlos Marques Cardoso.