Amor de Salvação


    Essa resenha foi feita sobre o livro Amor de Salvação impresso pela Editora Difusão Cultural do Livro LTDA. Ele é da Coleção Grandes Nomes da Literatura. São Paulo, 2006.
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa, Portugal, em 16 de março de 1825; faleceu no dia 1° de junho de 1890, fruto de um suicídio.
A
José Gomes Monteiro
Meu amigo.
Peço licença para escrever o seu nome na primeira página deste livro. Esta fica sendo para mim a mais prestante obra. As outras são futilidades; porque lágrimas e alegria de romance é tudo fútil.
No Minho, em 1864.
Camilo Castelo Branco.
Observação.
Procurando em todas as páginas deste livro, o leitor, não encontrará esse amor de salvação que costa como título da obra.
Após um amor frustrado logo o coração se regenera e vive a sonhar por um novo amor honroso e digno.
Igual a felicidade é esse amor puro, não avança mais que três páginas. Um amor puro que consegue preencher um romance seria tachado como fábula. Para um amor maldito tamanho volume se pode fazer.
Era véspera de natal, ano de 1863, céu claro e ar tépido. Os montes estavam todos floridos. Pessoas me perguntam onde floresce bouças e montados. Em Portugal, no Minho, terra dos deuses, dos mitos, dos sonhos, dos poemas. Se não tivesse existido a Grécia, nossa pátria, com certeza, seria o grande berço dos povos. As espécies que crescem aqui são verdes e alegres, produzem flores lindas e possuem espinhos para as defende-las.  
Estou a andar sem rumo certo, nesta ensolarada tarde de 1863, véspera de natal. Sou um ser sem família, apenas tenho a companhia de alguns cães, fruto da comida que a eles dou. Passo por muitas casas humildes e ouço canções, risadas, todos em confraternizações. Pelas fortalezas dos ricos com suas grossas paredes sequer uma nota musical escapa para alegrar os desafortunados deste mundo.
De tanto andar acabei por passar da hora. Estou longe de casa. Peguei um caminho que achava o certo. Perguntei como faria para chegar ao local, a pessoa me respondeu que por aquele caminho era mais fácil chegar a Roma que no dado lugar. Deu-me abrigo e não o recusei.
Quando lá dentro, fui recebido por um homem, esse me perguntou se eu o conhecia. Pela aparência não me veio ninguém a memória. Ele disse que sabia quem eu era. Por fim, disse ser Afonso de Teive. Jamais poderia imaginar aquele ser sendo o velho amigo meu. Estava ele, eu e havia duas crianças a correr. Fiquei sabendo que na parte de cima da casa tinham outras seis e que a nona já estava por vir. O mais assombroso foi ele afirmar que vivia em repleta felicidade. 
Conheci Afonso em Coimbra, no ano de 1845 e o encontrei novamente no Porto. Ele havia passado pelo curso escolar e estava descobrindo a vida. Não possuía em seu trato graciosidade. Ele tinha fama de rico e vivia rodeado por pessoas interesseiras. Era dado a namoro, vivia a passear pelos camarotes do teatro São João.
Afonso deixou o porto e foi para a França ou para Turquia em 1848. Existiam nele traços orientais. Se para Turquia foi, do jeito que era, deve ter causado confusão no harém do grande chefe.  A verdade é que o encontrei no ano seguinte em Lisboa cavalgando um alazão ao lado de uma Amazonas. Alguém me disse que Afonso havia raptado Palmira de algum grão-vizir. Como ele não mencionou nada não quis eu tocar no assunto.
O noticiário, o que tem nessa palavra de humanitário? Até hoje ninguém deu uma resposta convincente sobre o fato. A vaidade levanta palácios para abrigar sem tetos. Quando o beneficio é para todos acho que o trabalho deva ser visto por Deus como algo benéfico, mesmo sendo construído sobre o alicerce da vaidade. Vou contar-lhe como eu vi prosperar em uma terra deste reino um asilo para velhos.
Dona Elvira era uma dama casada que não tinha pelo marido o amor sincero. Ela vendo a demência do marido procurou outros braços. Para manter silencio sobre seus atos contratou uma família de velhos. Essa gente sempre crescia em despesas. Querendo diminuir os gastos propôs ao marido abrir um asilo. No local havia dois jornais, nenhum nunca tinha falado de algo benéfico que ela porventura tinha feito, se é que fez algum em alguma época. Soube por um desses jornais que D. Benedita ofereceu aos presos as sobras do jantar realizado pelo aniversário de seu esposo. Foi chamada de virtuosa pela gazeta por mais de uma vez. Levantou o asilo e no outro dia estava estampada na gazeta como: pomba de beneficência, anjo da caridade, lâmpada do evangelho, etc.
D. Benedita sabendo da popularidade da rival resolve erguer um novo asilo com capacidade para quarenta e oito velhos. Onde acharia tanto idosos para sua obra. Foi aparecendo gente de todo tipo e assim foi preenchendo as vagas. Os jornais no dia seguinte colocavam interjeições: Oh! Ah!
Transcorridos quatro anos D. Elvira passou desta para outra vida. A caridade do viúvo se foi, juntou com o marido de D. Benedita e fizeram os dois apenas um. Vivia o asilo com doações de muitas outras mulheres.
Divaguei um pouco do tema central do livro, mas acredito que respondi a sua pergunta. “Não seria isto a beneficência?” Veja essa árvore religiosa que parece podre e vive cheia de intenções.
Escrevo da maneira que acredito ser a certa. Um amigo escreveu seis novelas todas de acordo aos Dez Mandamentos. Diziam que em pouco tempo consertaria o mundo. Mas após dois anos, o mundo havia piorado e a editora não conseguia vender. Ela pediu para que ele escrevesse romance e que deixassem os sermões para os que o procurassem. Descobrir que esse meu amigo era eu mesmo.
Deixei Afonso em 1851, vim para o Minho. Aqui descobri quem de fato era Palmira. Um cavalheiro me disse que Palmira era Teodora. Ela tinha sido educada em um convento e saíra de lá para se casar com um idiota. Ao passear por um bosque encontrou Afonso e pediram aos deuses infernais que imolasse o pobre do marido. O coitado encontrou uma nova mulher que fazia seus pratos de que tanto gostava. Ele era um hábil comerciante. Agora vê o leitor meu espanto. Esse Afonso não tem nada de parecido com o que acabei de encontrar: gordo, de barba, óculos e tamancos.
Subimos para outra sala estando rodeados pelos meninos que não paravam um segundo de fazer algazarra. Afonso me mostrou seus moveis todos feitos por materiais portugueses e perguntou-me se gostaria primeiro de conhecer sua biblioteca ou a sua esposa. Fiquei com a segunda opção. Ele pediu a um de seus filhos que fosse chamar a mãe e que ela não precisava se arrumar. Chegou e vi que não era mulher de se colocar em romance, mas simples como estava qualquer pessoa perde um pouco do brilho. A mulher, segundo Afonso, era uma magnífica cozinheira. Tinha essa arte como á poesia. Comemos uma deliciosa ceia ao sabor das confusões dos meninos.
No dia seguinte apanhamos dois cavalos e saímos a passear. Eu montava uma égua; enquanto Afonso, um simples cavalo. Quem foi aquele Afonso que montava um lindo cavalo negro? Perguntei a ele por Palmira. Afonso não gostou. Fiz algumas considerações e continuamos a cavalgar. Paramos na pousada de Joaninha, pedimos um quarto com duas camas, nos deram um com cinco. Afonso disse que era a primeira noite a dormir longe dos braços da mulher durante esses últimos dez anos. Começou a contar sua história, a vela acabou lá pelas onze, ele não parou, quando descemos no dia seguinte, ainda não tinha acabado.
Deixei Ruivães após oito dias, voltei a conhecer o sossego das noites, pois nesse tempo não me fiz uso da pena e do tinteiro que são instrumentos para acalantar minhas dores. Ao partir, Afonso me pediu que escrevesse algo sobre ele que lhe daria a eternidade, minha resposta foi que seria de meros quinze dias. Voltei a minha tenda, a minha pena e a meu tinteiro. Voltei a escutar os ramos de um arvoredo raspar o telhado nas noites. Amava a morte como esse som. Escrevia a história de Afonso como ele me contara. Em certo momento fiquei alegre, pois era à alegria de um instante dele. O Deus que nos reprova, que nos escuta, que nos povoa. Então o que ele fez: orou. E agora também me faço deste sentimento: orei.
Afonso de Teive viu Teodora (conhecida por Morgadinha) pela primeira vez quando tinha dezessete anos e ela catorze. As mães dos dois jovens haviam feito um pacto que se elas tivessem filhos de sexos diferentes um seria prometido ao outro para continuação daquela amizade. Dois anos antes do prazo, a mãe da jovem veio a falecer. A menina foi entregue a um tio que a colocou em um convento. No inicio, Afonso ia visitá-la disfarçado como parente, mas o tio sabendo colocou fim. Ele ficou triste e ela louca para curtir esse amor nos braços do amante. Teodora conhece Libana, essa foi trazida ao convento como punição. As duas sonhavam com seus príncipes, estavam apaixonadas e viviam na esperança da saída. Libana arquitetou com seu namorado um plano para que ele fosse visitá-la no convento vestido de mulher, uma história do romance Lovelace. A cidade ficou sabendo que confeccionava roupas femininas para o jovem Alfredo. Os irmãos dela alertaram as autoridades que o pegou na portaria das Ursulinas. Levou-o sobre golpes de baionetas e teve que passar por várias repartições inclusive pelas caricias do carcereiro. Libana foi expulsa e levada pelos irmãos. 
Afonso numa tentativa desesperadora vai à porta do convento tentar tirar Teodora. Grita e reclama a uma bondosa freira. Quando avança para deferi um soco na porta é segurado por um policial que passava naquele instante. Levado a delegacia, logo solto pela mãe. Passou a chorar e reclamar bastante. Foi aconselhado a ir estudar em Lisboa morando na casa do tio. Estudante fraco, dentro de casa tratava mal os parentes. Sempre escrevia cartas à mãe na tentativa de apressar o casamento.
Teodora foi encaminhada para casa do tio assim que a mãe morreu. Eleutério sabedor das posses herdadas pela parenta a acolhe com segundas intenções. Desejava casar o filho e assim juntar as duas riquezas, a dele e a da moça. O filho dele era muito feio, não conseguia aprender, deixou os estudos e achou seu trabalho no ramo de negociar. Teodora só andava a chorar. Recebia dos parentes: “Não chores, pequena: que a morte é portelo que todos temos de passar”. A família aconselhou que encaminhasse a moça ao convento das Ursulinas. Ela acolheu com bom grado, pois não suportava viver na casa do tio.
Teodora nos dezesseis anos era um modelo acabado de formosura. Sua palidez tinha um quê de beleza. Seus lábios eram romãs. Os olhos negros e mórbidos. Nariz perfeito. Se Teodora morresse naquele momento seria um anjo em beleza, porém cresceu e deformou-se.
Afonso foi para Lisboa deixando Teodora cismada. Recebeu uma carta do amado onde ele dizia que agüentasse dois anos para o casamento. A jovem já não suportava mais aquela vida enclausurada naquele convento. Enquanto ela sofria presa ele estava em Lisboa. Ele poderia fazer tudo, pois estava solto, já ela teria que suportar dois anos. Mas Afonso sofria. Eleutério foi com o pai visitar Teodora, lembrava da prima como um arenque, mas ao chegar e ver ela com então dezesseis anos ficou bobo. A moça achou ridículo o que ele disse e entrou em ataque de nervos ao saber do casamento entre os dois. Na próxima vez que voltou, Eleutério retornou outro, não lembrava em nada aquele homem desleixado de outrora. O que um vestuário fino não faz a uma pessoa? Teodora o olhou com outros olhos. Desejava sair daquela prisão e o caminho mais perto seria esse, casar-se. Ele passou a falar bonito, porém não conseguia dizer palavras de três silabas: “Queria ser como Sansão”. O que ele desejava dizer mesmo era Salomão.
As filhas do desembargador Figueiroa paparicam Afonso na tentativa dele olhar para elas no sentido de amor. Ele desconhecia e sequer notava o interesse das moças, melhor, porque se soubesse acharia uma afronta. Afonso andava sempre emburrado, obcecado por sua paixão. Rogava a Deus que intercedesse em seu favor. Gostava de passar dias na sombra de grandes árvores a pensar em Teodora. Em uma dessas vezes demorou mais de três dias, Figueiroa preocupado e com duas cartas a entregá-lo foi em busca do rapaz. A primeira carta era da mãe, Afonso leu e não entendeu o que realmente ela queria dizer. Já a carta que o tio mandou era clara ao dizer que Teodora havia se casado com o primo. O tio lembrava que sua filha estava pronta para se associar com ele, bastando apenas querer. Afonso pensou e resolveu mudar-se para outro lugar, mandou uma carta à mãe avisando do destino que traçava. Eulália foi se despedir do filho em Lisboa. Disse que a grande culpada do estado deprimente do filho era fruto dela. Todos os presentes choraram de emoção, enquanto Afonso abraçava em pranto a mãe que assim também se encontrava.
Afonso para colaborar com os familiares concordou em esquecer Teodora. Fazia de tudo para dissimular seus sentimentos, conseguia, porém quando se encontrava só deitava a face e se consumia em lágrimas. Foi para Coimbra estudar na universidade, escolhera filosofia. Nos primeiros dias esteve na companhia de velhos estudioso, logo procurou abrigo entre os literários. Escreveu poesia para uma revista e foi comparado com poeta famoso. Desgostou desses amigos. Procurava nos estudos o esquecimento daquela paixão avassaladora. Depois de um ano de estudo foi passar um mês de férias em Lisboa. A mãe, a pedido dele, foi ao seu encalço.
Já pronto para retornar a Coimbra quis ir ver o sítio que me lembrava o passado. Peguei um pequeno barco e subir o rio. Parei frente às ruínas de um convento. Indaguei alguns pontos e fui ao encontro da minha mãe. Enquanto conversava com ela ao longe vinha a galope uma dama que montava com destreza e um homem desajeitado na arte da montaria. O sangue esquentou, Teodora linda aparecia para mim.
Retornou a Coimbra para o segundo ano de universidade. Recebeu uma carta de Teodora, leu, ficou com duvida se deveria ceder ao apelo da paixão ou ir de acordo os mandamentos e normas sociais.  Enveredou-se na libertinagem e na embriagues. Logo eclodiu uma guerra civil e a universidade foi fechada. Afonso decidiu dá um novo ruma a sua vida, voltou a Lisboa para tratar ao lado dos lugares que tanto lhe lembrava coisas boas. Recuperado e disposto a esquecer seu antigo amor passou a esboçar sorriso. Bastou um novo encontro com Teodora para sua loucura retornar. Enquanto andava com a prima, uma sombra que vinha em sentido contrário se esbarrou nele e disse uma frase de rancor, depois lhe lançou um embrulho aos pés. Ele conheceu a voz automaticamente, a prima pelo estado que o primo ficou sabia de quem se tratava. Foi para casa e se recolheu a um canto para ver o que havia no embrulho. Cartas, todas escritas para ele num tempo remoto. Junto havia uma caixinha, ele abriu e no interior encontrou as flores secas que lembrava tempos passados e uma trança dos cabelos dela. Afonso levou a boca e beijo-a. No fundo encontrava-se outra carta, sem fôlego para ler, guardou e saiu. No corredor Malfada encontrava-se aos prantos. O motivo era sofrer do mesmo sofrimento do primo, ela amava Afonso igual Afonso amava Teodora, porém via que seu amor jamais seria correspondido. A moça correu para os braços do pai. Aquele amor comoveu Afonso. Porém havia uma carta a ser aberta.
Afonso se dirigiu ao quarto para lê-la. Agora ele me deu a mesma carta para mim lê. Teodora contava como foram seus dias no convento. Sua paixão por Afonso. E que estava disposta a tudo para viver esse amor, mesmo sendo considerada depois pela sociedade como meretriz ou coisa assim. Terminei a carta com lágrimas no rosto.
Não foi por causa desse palavreado bonito e cheio de sentimentos que me fez voltar atrás, continuemos e você verá os verdadeiros motivos. Li a carta outras três vezes. Fui respirar o ar fresco na janela. A noite escura e nublada sequer mostrava uma estrela. Sair nas pontas dos pés para ir aos lugares dos últimos encontros. Malfada apareceu em meio à sombra, conversamos por alguns minutos. Deixei a casa na intenção de encontrá-la, mas nos lugares apenas ficaram as lembranças.  Deitei nas raízes de uma velha árvore e dormir. Acordei com o sol, estava totalmente molhado pelo orvalho. Voltei à casa de meu tio, minha prima estava com os olhos abatidos de tanto chorar. Ele me pediu que o acompanha-se. Paramos defronte à ruína de uma casa. Ele me contou uma história de um parente que morreu naquele lugar após ter padecido por amor. Pediu para que eu afastasse da filha dele caso não desejasse algo duradouro com ela. No dia seguinte, deixei a casa. Abandonei os estudos e fui viajar por outros países. Um ano depois, retornei para ver minha mãe. Achava que estava curado, duas semanas e o fogo já me consumia novamente. Fui visitar a cruz que na infância eu brincava com Teodora enquanto nossas mães conversavam. Na madeira da cruz estava escrito as tristezas de Teodora e a data. Ela esteve no local cinco dias antes. Retornei no outro dia e li em um dos braços da cruz uma mensagem de Teodora. Apaguei para que minha mãe não a visse. Ao chegar à residência de mamãe, Malfada me atalhou e proferiu a mesma frase. Ela havia lido primeiro que eu, e teve a bondade de não apagar. Convidou-me para um passeio. Paramos para um dialogo, ela sempre em pranto me questionava se eu iria deixar a minha mãe para viver com Teodora. Não podia mentir para Malfada, uma santa. Chorando ela me mostrou ao longe alguém cavalgando. Era ela, Teodora. Esqueci do anjo que estava ao meu lado para pensar apenas no demônio que montava a cavalo.
Afonso deixou crescer novamente o antigo fogo adormecido. A mãe preocupada com o filho ainda mais pelas aproximações de Teodora chamou-o a uma conversa. De rosto sério e com voz firme explicou ao filho o que achava e o que desejava que fosse feito. Para ela o adultério era um crime dos piores, suficiente para manchar o nome da família. Pediu para que ele viajasse e só voltasse quando tivesse esquecido aquele amor infernal. Passou as heranças deixadas pela esposa para Afonso. Ao despedir foi muito choro entre os três: Afonso, Eulália e Malfada.
Afonso retornou a Lisboa. Sofria muito, assim resolveu morar em uma rua afastada para ter sossego. Encheu a casa de livros, passou a viver exclusivamente da leitura e da escrita, esta para passar o tempo, não queria ser renomado. Passado algum tempo, essa vida que levava perdeu seu prazer. Enquanto andava, um velho amigo o conheceu e chamou-o. D. José de Noronha começou a freqüentar a residência de Afonso e ele a sua. Logo se mudou para uma nova casa no centro dos grandes movimentos sociais. Contou a José a história dele com Teodora. O amigo que para os estudos não conseguiu progresso e vivia dos dotes deixados pelo pai tinha uma vida regada a vinhos e farras. Certo dia, enquanto numa roda de amigos em casa, Afonso recebe uma carta de Teodora, nela a mulher implorava pelo amor dele. José e os demais amigos insistiram para que ele deixasse que fosse lida a carta. Depois de muitas conversas a carta foi queimada por Afonso.
Chegou à residência de Afonso um deputado, o mesmo que intercedera quando Afonso foi preso tentando entrar a força no convento. O visitante contou ao dono da casa a vida que levava Teodora. A mulher após ter casado com Eleutério comprou um carro de livros e passava dias e noites lendo. Mobiliou a casa ao seu intento, a princípio houve certa relutância por parte da família do marido, porém a moça ameaçou deixar a casa e sair em busca do seu antigo amor. Logo comprou um cavalo e pediu um lacaio, andava a galope por vastas regiões. Disse que Teodora vivia um casamento apenas de papel. Esses novos fatos incutiram em Afonso fontes para mudar sua conduta. Escreveu uma carta a Teodora, contendo dezoito páginas. Ignorou que a mesma pudesse ser lida por Eleutério. Esse estava na feira e foi ver se havia alguma correspondência do Brasil para o pai. Olhando os envelopes encontrou uma endereçada a sua mulher. Vinha de Lisboa, tinha selo especial. Não agüentou e pediu que o amigo lesse. Ele leu, porém não entendia nada, a carta era escrita em forma de poesia com palavras ainda não escritas no paço dicionário dos dois. Vinha chegando Fernão de Taive e sua filha Malfada. Eleutério pediu para que ele lesse, ao pegar a carta sentiu um peso no braço e viu sua filha desmaiar. No alvoroço todo, prevendo do que se tratava, fez do conteúdo pedaços. 
Afonso esperava ansioso por uma correspondência da Morgada, passado dez dias, ele recebe uma carta, D. José lê e deduz que alguém tinha interceptado a que o amigo mandou. Diz no papel que se ele tivesse enviado algo para ela que voltasse a mandar novamente, agora para uma cidade próxima, Barcelos. Teve uma idéia, pediu que o lacaio aprontasse um cavalo. Em vez de mandar a carta foi ele mesmo pessoalmente. Chegou ele ao local destinado duas horas antes. Dormiu e sonhou com Teodora nos braços de outro. Acordou, voltou a dormir, sonhou com a mãe desfalecida nos braços da prima Malfada. Acordou, por um momento pensou em fugir. Ouviu passos de cavalos, olhou pela janela e lá estava Teodora. Ficou a olhar pelo buraco da fechadura, ela mandou seu lacaio saber se havia correspondência. Ele voltou de mãos vazia. Pediu para que ele saísse, estava muito irritada. Afonso saiu triunfante do quarto. Teodora não disse ah! desmaiou nos braços de Afonso. Ficaram em caricias por uma hora. Ouviu-se novos passos de animal, alguém subia. Eleutério entrou e viu ainda sua mulher soltar os braços do pescoço do amante. Tirou um chicote do bolso e ameaçou batê-la. Afonso tomou a frente, porém desarmado. Teodora sacou de uma arma e colocou nos peitos do marido. Ele melou a face de lágrimas e jogou uma praga: “Castigada te vejo eu, e Deus me vingue!”. Afonso voltou para Lisboa com Palmira. Eleutério retornou só dizendo que não possuía mais mulher.
A vida do novo casal era no luxo, gastou em pouco tempo patrimônio que planejava usar em dez anos. Afonso recebe uma carta do tio onde pedia que se lembrasse do tio-avô Cristovão de Teive. No momento ele perguntou a Palmira se havia nele manchas, ouviu um não, no quarto enquanto fazia cálculos viu que a vida levada não duraria muito tempo. Irritou, porém saiu a viajar com a mulher e o amigo D. José. Na volta, após um mês, tinha duas cartas esperando-o. Leu à primeira, sua prima o avisava que Eulália estava bastante doente; na outra, avisava da morte dela, essa veio acompanhado por mais uma, escrita pela defunta ainda em vida quando soube da sua enfermidade. A carta causou bastante comoção nele. 
Um mês passou, Afonso retraído em pensamentos. Considerava-se culpado por não ter escutado os conselhos da mãe. Chamou Palmira e tiveram uma longa conversa. Ele dizia que estava cheio daquela vida de prazeres tantos. Desejava mudar a vida dele e da mulher. Ela se irritou. Afonso escreve uma comovente carta a Malfada e pede a um lacaio para a entregar no posto de recebimento. Momento depois, na sala adentra Palmira com a correspondência aberta exigindo que a mesma fosse refeita. Há uma discussão, no fim ele mesmo vai postar a carta.
Retornava para casa, triste, parou frente à residência e soube pela carruagem que o amigo D. José lá se encontrava. Foi abordado pelo lacaio de confiança, esse contou suas suspeitas quanto a D. José e Palmira. Afonso pediu para ele manter silencio e entrou na casa. Conversou com os amigos e a esposa indo em seguida ao quarto queixando enxaqueca. No caminho resolveu entrar no cômodo onde a mulher costuma escrever, achou escondido em umas gavetas provas do crime de traição. Lembrou das palavras de Eleutério: “Castigada de vejo eu, e Deus me vingue”. Pegou as pistolas para matar os dois, o pensamento na mãe fez o desistir. Deitou matutando no que iria fazer. Palmira veio ao quarto e voltou para fazer sala aos amigos. Afonso levanta e segue nas pontas dos pés e pega o amigo D. José sentado ao lado de Palmira. Houve um grande bate boca, as cartas foram lançadas contra o rosto da mulher. D. José pega o caminho da rua, quando sai, já a porta é pego por Tranqueira, o lacaio de Afonso, esse o apanha e mete a cabeça do coitado no tanque onde os cavalos matam a sede. Teodora ao ver o amante naquele estado sente nojo do homem cobarde que era D. José. Afonso abandona a casa junto com o lacaio fiel.
Afonso passa a noite em um lugarejo próximo, na sua ida, essa acompanhada por Tranqueira, teve febre e só não caiu do animal porque o lacaio lá estava. Dormiu mal, delirou-se. Soube por intermédio do lacaio que a mulher havia partido e levado muitos pertences, a cabeça dele remoia em ciúmes, imaginava os momentos dela ao lado de D. José. Regressou para casa. Não quis mais a companhia dos amigos. Recebeu uma carta de Malfada. Mandou uma pedindo que vendesse alguns bens. O tio foi quem enviou desta vez, a filha estava doente. Essa última carta falava dos negócios e contava que Teodora estava por lá exigindo de Eleutério o que a ela pertencia. Aliviou o coração amargurado de Afonso. Iria para França em busca do amor de salvação.
Oito dias fechado em uma casa. Procurou os portugueses, fez amigos, passou a freqüentar bailes. Viu nas moças da classe rica um sonho distante, elas desejavam rapazes de riqueza avantajada, enquanto que o muito que Afonso tinha como patrimônio só daria para uma vida a dois por menos de um mês. Desiludido com a realidade deixou de gastar com as festas, pois sabia que não tinha condição de competir com homens de riqueza anormal. Certa madrugada acordou com disposição para riqueza. Apostou nos jogos de fundo. No começo, jogava pequenas quantias, ganhava, assim aumentou seus bens, cresceu as apostas e quando acordou estava na miséria. Não suportando a situação pediu que o tio comprasse as derradeiras migalhas que sobrou da família. Por pedido de Malfada e por ser irmão da mãe do pedinte fez a vontade.  
Passado seis meses, Fernão de Teive se encontrava enfermo sobre uma cama. Malfada chegou e conversou com o pai, ele dizia que estava preste a morrer, a filha chorou. Fernão então disse da dificuldade que Afonso passava na França e a perguntou o que achava ser melhor a fazer. O Padre Joaquim entrava no quanto e foi logo indagado se gostaria de ir a Paris levar o dinheiro ao sobrinho. Ficou certo da sua ida.
Afonso havia perdido tudo nas suas habituais apostas, estava praticamente pobre. Chama Tranqueira para dá um punhado de jóias. O servo recusa e vê nos olhos do amo uma vontade eminente de suicídio. Uma frase que faria o filho de Eulália mudar de rumo foi esta dita por Tranqueira: “Quem precisa trabalha”. Na noite anterior ele tinha lido um livro contendo muitas elucidações a respeito da moral, e consolação a desvalidos, mas foi nas palavras de um servo que encontrei minha salvação.
Meus amigos do passado me escreviam, porém poucos eu respondia. Um, por sinal, mandou-me uma carta contando a situação da desvalida Palmira. Ela foi vista em um teatro estava acompanhada por um homem gordo, achava-se que esse era o primeiro homem. O amante D. José de Noronha andava sumido por causa das seqüelas deixado pelo banho de cisterna.
Fernão durante a madrugada fechou os olhos para a vida da terra nos braços da santa filha. Dias depois chegaram à França, ela e o Padre Joaquim. O padre entrou na sala onde se encontrava Afonso, ele estava a escrever para o tio. Malfada adentra no recinto. Com a intervenção do Padre os dois juntaram no Amor de Salvação.
Terminou já no amanhecer. Afonso e eu voltamos a sua casa para um descanso de duas horas antes da minha partida. Perguntei se o Padre ainda era vivo, respondeu que sim. Indaguei a respeito de Tranqueira, vivia com ele morando em um confortável quarto. Questionei sobre Palmira, recebi um não sei como resposta. Disse para Afonso: “Escreverei sobre ela, ou então será esse meu último romance”. Parti com a certeza de encontrar Teodora.
Camilo Castelo Branco com muita maestria escreveu esse espetacular romance. Aconselho a todos que doem um pouco do seu tempo para desfrutar dessa leitura.

    Por: Luiz Carlos Marques Cardoso.
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