Triste Fim de Policarpo Quaresma


    Lima Barreto publicou o Romance Triste Fim de Policarpo Quaresma em março de 1911. O livro possui três partes: a primeira conta a vida pacata de Policarpo Quaresma, a segunda mostra a vida dele enquanto na fazenda Sossego, a terceira ele vai à guerra e sofre seu duro fim.

    Policarpo Quaresma, ou Major Quaresma, era daqueles homens pontuais, chegava sempre do serviço às dezesseis e quinze. Quando ainda moço quis servir ao exercito, mas por característica do corpo não pôde lutar por esse sonho.
    Desgostou-se, porém manteve fiel a pátria. Estudou administração e escolheu o ramo militar para seguir carreira. Gostava do clima dos batalhões, adorava ficar entre soldados e canhões. Lia tudo que dizia respeito ao Brasil, amava sua terra como um todo, não fazia distinção dos estados tão pouco das várias culturas. Possuía em casa um vasto arsenal de livros. Sabia a geografia de todos os rios. Jamais aceitava ver alguém afirmar que o Nilo ganhava do amazonas em tamanho. Só tinha em mesa comidas típicas da sua querida terra. No jardim só crescia plantas regionais. No trabalho ministrava verdadeiras aulas aos seus colegas, que o ouvia com respeito, menos o Sr. Azevedo. Não demorou em tarja-lhe um apelido, Ubirajara, pois estudava Tupiniquim. Viu no violão algo brasileiro e passou a tomar aulas, em casa, com um trovador de modinhas, o Ricardo Coração dos Outros. A vizinhança não gostava desse novo gosto dele, via no violão coisas de vagabundo. Em uma bela tarde, Ricardo foi à residência do discípulo onde jantou um prato com iguarias nacionais, depois foi ensinar ao aluno a arte dos malandros, como acreditavam todos. Quaresma não levava jeito. Coração dos Outros por fim cantou e tocou uma modinha. A janela estava aberta, os vizinhos chegaram para apreciar. Ismênia bate a porta, vinha pedir ao tocador que fosse a sua casa, o pai dela desejava muito conhecer o moço e vê-lo tocar.
    Policarpo após trinta anos de estudos achava que o momento era oportuno para por suas idéias em pratica. Queria ver o Brasil maior em prestigio que a Inglaterra, aqui como ele mesmo afirmava, possuía todas as frutas, animais e climas.
    O General ao ouvir o tocador ficara muito animado e com a ajuda de Quaresma saíram à procura da casa de certa lavadeira, de nome Maria Rita, na esperança que esta velha senhora os ensinasse antigas modinhas.
    Policarpo acompanhado por seu amigo, o General Albenaz, passam por casas antigas, essas não lembrava mais as dos reinados; andam na antiga estrada que trazia o ouro das Minas Gerais, para uma corte imponente onde o rei era relaxado tendo como soldados homens tristes e fracos montando pangarés.
    Passaram por muitos lugares até chegar a uma casinha baixa, ao lado havia um monturo e um mamoeiro. Bateu na porta. Uma moça de cor escura apareceu e mandou-os entrar.
    Nas paredes jornais antigos, folhinhas contendo calendários de anos mortos e imagens de santos. Não tardou para a velha entrar capengando pela porta. Sua memória o tempo consumia como algo que nascera fardado ao desaparecimento. Não conheceu o General.
    - Queremos saber umas cantigas: Bumba-meu-boi, Boi Espácio.
    Maria Rita em seu esquecimento já acelerado pela velhice dava por desentendida. De tanto insistirem lembrou a do “Bicho Tutu”.
“É vem tutu
Por detras do murundu
Pra cumê sinhozinho
Com bucado de angu”.
    Isso é coisa para fazer menino dormir, indagou o General. Foram embora e ficaram desanimados por alguns dias. Soube que havia um poeta que sabia tudo soube folclore. Correram a casa do velho. Ele os mostrou alguns textos, por fim resolveram fazer o “Tango-Lomango”.
“Uma mãe teve dez filhos
Todos dez dentro de um pote
Deu um Tangolomango nele
Não ficaram senão nove”.
    Na festa do amigo Policarpo vestiu o capote e fez o Tangolomango.  Na quinta criança ele se espatifou no chão.
    Passou a estudar folclore. Decepcionou em saber que as velhas cantigas pertenciam a outras pátrias. Nem mesmo o Tangolo-mango era fruto de algum formidável brasileiro.
    Recebeu um amigo em casa, em vez de um aperto de mão o saudou com um chororô, como faziam os Tupinabás.
    A filha de Albernaz, enfim, iria se casar. O estudante de odontologia chegava, após muitos anos, ao termino do curso. Marcaram a data para dali a três meses. D. Maricota estava feliz, o General nem se fala. As irmãs ainda mais, pois já podiam pensar em casamento. As moças daquele tempo viviam para o casamento, sonhava com seu grande dia, era o auge da vida. A pobre noiva se detinha, não possuía aquela mesma animação das irmãs e colegas.
    O dia chega. A festa seria na casa do pai da noiva. Tudo arrumado. Convidados foram chegando aos pouco até encher o local. Albenaz convidou seus amigos da marinha e do exercito. Relembraram velhas histórias. Em outro aposento estava o noivo a conversar com pessoas mais simples. A noiva estava rodeada pelas amigas que palpitava sobre assuntos pertinentes a casamento, a vida conjugal. Coração dos Outro não fora convidado, pois não pegava bem um cantador de violão comparecer a um acontecimento desta ordem. Quaresma havia recebido convite, porém não quis comparecer. Maricota chama o esposo e os amigos dele para dá início ao baile. A dança começa e logo os amigos sentaram para um joguinho de cartas. Fizeram uma pergunta a D. Quinota a respeito do Genelicio. Ele era o namorado da moça, empregado do Tesouro, bajulador nato, fazia de tudo para acender a vida pública. Genelicio chega e comenta que Policarpo ficara doido. Quaresma havia escrito um requerimento ao ministro na língua tupi. Soaram alguns comentários injuriosos: “Livros só poderia ser lidos por aqueles com títulos acadêmicos”. O requerimento foi lido na assembléia, todos sorriram. Os jornais estamparam, em primeira página, o tal requerimento. Passaram-se duas semanas com destaque nos jornais. Quaresma estava na boca do povo, da pior maneira.
    Coleoni lê no jornal as críticas ao velho amigo. Olga faz um breve comentário e defende o padrinho. Policarpo sempre fechado, vivendo na companhia calada de seus livros, via aquilo tudo sem muito importar, pelo contrário, afinava ainda mais suas velhas convicções. Enquanto trabalhava resolveu escrever um ofício sobre coisas de Mato Grosso, o fez em Tupi. Sem se dá conta coloco-o junto a outros papeis e encaminhou-os ao diretor. Este, sequer olhou os papeis, passou-os ao ministério. O dito ofício causou estrondoso rebuliço, pois ninguém sabia em que língua estava escrito. O ministro devolveu o ofício ao Arsenal. O Coronel ao ver o estilo das letras soube de imediato que era coisa de Quaresma. Suspendeu Policarpo até segunda ordem.
    Quaresma acabou sendo internado em um hospício. A afilhada acompanhada pelo pai como já de praxe foram fazer uma breve visita. Entrou por aquele local estranho e foi ter com o padrinho. A conversa passou-se rápida. Ele ficou sabendo do casamento de Olga, indago-a se realmente gostava do noivo. Ela pensou um pouco e respondeu que sim. Deixaram o local para ir pegar o bonde. Pararam ao ver uma mulher em pranto. Pensaram que o filho havia morrido. Ela respondeu que chorava por algo pior, seu filho não a reconhecia mais. Entraram no bonde e foram para casa de Quaresma. Passaram pela cidade que parecia a um esqueleto, faltam-lhe as carnes, que são: a agitação, o movimento dos carros, de carroças e de gentes, pois era domingo.
    Na residência de Quaresma Ricardo Coração dos Outros conversava com D. Adelaide. Ele precisava escrever suas canções, pois deveria enviar ao Sr. Paysandon, da Argentina, porém não tinha cabeça para tal tarefa, a mesma estava ocupada com o fato de ter um rival, um negro que tocava demais o violão. Não havia nele preconceito, todavia um medo mórbido de perder o pouco prestigio que tanto o custou a conquistar. Chegam Coleoni e sua filha. Olga anuncia que irá se casar. A conversa desbandeira por esse caminho e entraram a falar em casório. Logo passaram a Ismênia, esta o noivo assim que casou foi ao interior e já passaram três meses e sequer sinal do infeliz. A pobre moça anda bastante abatida. Ismênia entra como de costume. A conversa segue seu curso.
    Quaresma deixa o hospício após seis meses vivendo em suas dependências. Retornava triste, o tempo passado em meio a loucos lhe causou grande abalo emocional. Olga refere à vida campestre, arrepende, as velhas chagas voltaram a brotar no rosto já feliz do padrinho. Os sonhos antigos rebrotavam do chão seco. Passou a lê sobre agricultura. Comprou uma propriedade de nome “Sossego”. Nela havia uma modesta casa, que ao longe via passar a linha de trem.
    Na fazenda tinha um antigo funcionário, de nome Anastácio, os dois labutaram alguns dias catalogando a fauna e a flora que ali conviviam, além dos minerais.  Assim que acabaram pegaram-se no cabo da enxada e puseram a limpeza do terreno abandonado. Enquanto trabalhava seus pensamentos flutuavam ao sabor do vento, sonhava com o farto lucro, tinha certeza que provaria a partir da agricultura que sua pátria era de grandeza maior que todas as outras existentes.
    Certo dia, um escrivão de nome Antonino bate a sua porta pedindo dinheiro para a festa da padroeira da cidade. Quaresma diz ao homem que deseja muito ajudar, ainda mais por ser algo autentico nacional. Antonino toca na disputa política que aflorava na região, o dono da terra não tinha interesse no assunto, ignorou-o.
    O trem pára, desce alguém, este vem andando na direção da casa de Policarpo. Ricardo Coração dos Outros vinha em seus passos miúdos trazendo seu violão.
    As casas em abundancia em um ponto, noutro poucas ou nenhuma; ruas largas aqui, ali vielas. Era no alto onde Ricardo tinha sua morada; um pequeno quarto com vista a perder horizonte adentro. Sentindo amargurado por ver seu rival ser aclamado, enquanto ele perdia lentamente seu prestigio. Passou a queixa-se da vida, a lembrar da infância na fazenda. Recebe uma carta onde o Coronel Albenaz o convidava ao casamento da filha Quinota. Ficou alegre e no dia aprazado lá foi ele com seu instrumento.
    Numa sala reservada os homens do exercito conversavam sobre guerras. Coração dos Outro chegou e ficou a apreciar a conversa. Para aqueles homens o Exercito era a mais bela das profissões.
    O noivo de Quinota havia escrito um livro de contabilidade. Fez muito sucesso, e o fez subir de cargo. Maricota pede para que eles fossem ver a garota cantar e tocar piano e avisa Ricardo que logo após será a vez dele. A moça cantou e recebeu tímidas palmas. Coração dos Outros tocou uma das suas modinhas. Todos o saudaram de pé com um arsenal de palmas. Uma moça pediu a ele a canção escrita. Ricardo aproveita o momento e pede a Albenaz uma passagem para ir visitar o amigo Quaresma, o homem de farda mandou que ele o procurasse no outro dia. Ismênia pede a Ricardo para falar a Adelaide que mandasse cartas para ela.
    Uma semana após o casamento de Quinota foi Olga subir o altar. Casava por conveniência. Esteve bela, como todas as noivas da sua classe social. O marido era então formado em medicina. Foram morar na casa do pai da noiva.
    Coração dos Outro fazia bastante sucesso no interior. Acabou ficando amigo do Dr. Campos e ganhou do novo companheiro a montaria de um cavalo para ir a casa dele sempre que quiser.
    Policarpo contrata mais um funcionário, Felizardo. Esse conversava demais, tudo que passava na vizinhança o traste sabia, contou certa vez que ouviu um negócio, segundo o próprio, de polícia, onde falava do Tenente Antonino e Dr. Campos.
    Ricardo compôs nova canção: “Os lábios da Carola”.
    Olga e o esposo foram passar alguns dias na companhia do padrinho. A moça ao fazer um passeio com a família do Dr. Campos esteve em uma linda cachoeira, esta ficava perto da fazenda onde hospedara. Viu a pobreza da população que possuía vasta extensão de terras, água e sequer erguiam a enxada a favor do seu sustento. Não conteve e questionou a Felizardo. As terras não eram daquela gente, e se plantassem as formigas carregavam tudo.
    Quaresma recebe o jornal da manhã e fica pasmo ao ver seu nome em uma poesia. Acusava-o de fazer política. Passou o dia triste e pensativo. À noite sentou na varanda para ler um livro. Os sapos cantavam em uníssono. Quando paravam um pouco escutava um estranho ruído. Os sapos voltavam a cantar. Parou-se o canto, o estranho barulho aumentara. Entrou casa adentro para ver do que se tratava. Saúvas carregavam da sua despenca os mantimentos. Tentou dá fim nos insetos. Quando matava uma, dez novas surgiam.
    A irmã de Quaresma era mais nova que ele quatro anos. O homem já tinha seus cinqüenta, ela mais nova, porém com idade já avançada não quis se casar. Vivia já há muito tempo na companhia do irmão, as idéias diferentes dele não a incomodavam. Policarpo vivia no mundo dos sonhos, idealizava um país prospero. Tinha como meta: fazer suas terras produzirem. Não reparava na miséria alheia nem investigou qual a causa da ociosidade daquela gente. Colheu a primeira safra de abacate, por muito insistir vendeu cem frutos pelo valor de uma dúzia. Ao deduzir as despesas o lucro foi ínfimo, não compensava o trabalho. Em vez de ficar desanimado o fez ainda mais convicto da sua missão. Contratou mais um funcionário, esse iria ajudá-lo no trato com as fruteiras. Mané Candeeiro era de pouca conversa, no entanto cantava feito passarinho. Criava seus próprios versos. Um desses chamou a atenção do patrão, pois fora o único a falar de um pássaro da fauna local.
    Plantou o milho, a batata, cresciam para mais de um palmo. Ao acordar alegre como sempre viu o fruto de tanto trabalho sumir ao sabor de uma noite. As saúvas haviam levado tudo para debaixo da terra. Sem desanimar, com muita determinação, comprou inseticida e atacou todas as casas de formiga que via pela frente. Quando pensava que o sossego chegara às pestes ressurgiam com mais força em ritmo veloz de organização e trabalho que colocava inveja ao mais hábil humano. Para vencer a praga deveria agir em conjunto com os proprietários vizinhos. Com todos esses desafios, ainda assim o sítio proporcionou lucro. Colheu muita batata e abobora. Angariou dois mil reis. A irmã ao ver aquela pequena quantia aconselhou-o a parar com tamanha barbaridade, pois não compensava o suor derramado. Nada fazia Quaresma desistir dos seus objetivos.
    Dr. Campos vai à residência de Policarpo propor que ele siga seu partido político. Não houve acordo. No dia seguinte chega uma carta ordenando que Quaresma limpasse uma faixa de terra defronte a sua chácara. Ele recusou a fazer o trabalho. No outro dia chega uma intimação avisando-o que deveria pagar um imposto pelas mercadorias vendidas. Começou a descobrir aí por que tanta miséria, os empecilhos era a grande trava ao progresso. Para que as terras do Brasil produzam deveria fazer uma reforma urgente no administrativo.
    Felizardo diz ao patrão que não mais irá trabalhar. Ao ser indagado qual o motivo ele passa a Quaresma um jornal. Lê e fica sabendo que a esquadra havia insurgido e intimado o Presidente a deixar o poder. Ficou alegre, pois via nesse golpe de estado uma chance para mudar o país. Enviou imediatamente um telegrama: “Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já. – Quaresma”.
    A cidade do Rio de Janeiro fervia de soldados e adeptos. Albenaz e Costa andavam na direção da estrada de ferro. No caminho passa pelas árvores que deitava suas sombras a rua. No auto o Palácio Imperial, imponente como a dizer que viverá vários anos, séculos. Encontraram um soldado dormindo, acordo-o e indagou-lhe sobre os navios. Ao fim, mando-o ir embora para não ser vitima de ladrões. Albenaz viu uma moça na estação e quase chorou ao lembrar-se da filha Ismênia. A pobre filha andava passo a passo rumo à debilidade total.
    Na cidade o clima era tenso, os que trabalhavam no setor público viam-se coagidos, os demais esperançosos com o futuro. Cada qual sonhava com suas realizações pessoais: o esposo de Olga desejava ser agraciado com um cargo de alto escalão, fingia ser estudioso, pouco conhecia da própria profissão. O amor da mulher por ele ia se acabando, sendo o que a fascinava era os dotes intelectuais dele, ao saber da farsa perdeu o carisma passando a ter raiva.
    Ricardo Coração dos Outros vivia socado em casa. Sua fama crescera a tal ponto que nem se ouvia falar mais no nome do rival. Passava o tempo a escrever suas canções, preparava um livro. Saia à rua e tão logo retornava para seu quartinho. Enquanto relia um de seus trabalhos, “Os lábios de carola”, ouviram-se um tiro, outro e mais outro.
    Quaresma deixou a Saudade e foi ao Palácio do Marechal Floriano. Ficou sentado um bom tempo esperando a coragem chegar para ir conversar com o novo rei da pátria. Floriano deixava transparecer uma preguiça mórbida, não a que acomete a homens fracos, mas aquela que toma do corpo. Lento nas decisões e humilde ao ponto de se igualar a subalterno. Chegado a sua vez teve uma conversa amigável com o Marechal. Quaresma havia redigido um memorial que o entregou naquele exato momento. Floriano pediu que o deixasse sobre a mesa. Chegou o Major Brustamante, o Marechal arrancou um pedaço do memorando e escreveu um recado, depois se desculpou com Quaresma. Policarpo e Brustamante deixaram o recinto juntos. Quaresma pega o bonde e no trajeto escuta tiros. Albenaz o encontra e vão conversando.
    Ele deixa a companhia do amigo e vai à residência de Olga. A moça se assombra com a visita do padrinho. Conversa um pouco e sai para rever as ruas que faz parte da sua vida, ver soldados, moças, ao fim constata que a vida continua na mesma.
    Foi conhecer seu posto, ficava em um antigo cortiço de pequenos cômodos. Ganhou fardamento e logo viu Ricardo entrar pela porta, vinha puxado por dois soldados. Coração dos Outros pedia loucamente para que o amigo o salvasse. Ele até que tentou, foi a Brutamonte, porém não obteve sucesso. Ricardo concordou, mas pediu seu violão de volta, foi feito cabo.
    A orla estava coberta por uma densa cerração. Os soldados andavam tensos a esperar o inimigo, que insistia em não aparecer. Ricardo olhava aquela praia feia, diferente, estava acostumado a apreciar os lindos arvoreceres. Desejava cantar e tocar seu violão. Pediu o Major Quaresma, o mesmo consentiu desde que não fosse muito alto.
    Em uma dessas noites surgiu uma lancha e lançou fogo, o projétil passou longe. E assim seguiu um lado tentando acertar o outro. Um rapaz gritava sempre que uma bala não atingisse seu alvo: “Queimou!”. Quando uma dessas, algo raro, atingia seu objetivo, aparecia a noticia nas páginas dos jornais. Com o passar do tempo, aquilo que era novidade cai em rotina, perde as graças. A guerra então ficara monótona. A vida retornava ao seu antigo cotidiano, quaresma procurou seus livros e os demais, cada qual, em seus afazeres, mas tocado a batalha.
    Coração dos Outros foi pego tocando o violão. Tenente Fontes o proibiu de tocar em serviço e foi tirar satisfação com o Major Quaresma. Esse achou sensato, pois ali não era lugar para cantorias. Após a conversa Policarpo saiu pela rua impregnada de morte e foi parar na residência do General Albenaz. Sentou a mesa com os amigos das primeiras visitas. A guerra já esfriara, com isso levava a esperança. Discutiam sobre os episódios, mas o entusiasmo já não era o mesmo. Quaresma observava na tentativa de ver Ismênia, perguntou ao General, ele respondeu que estava na casa de uma das filhas casada e que ia de mal a pior. Deixou o ambiente e voltou ao seu posto. O Marechal Floriano chegou para uma visita, gostava de sair à noite para ver como andava suas tropas. Conversou com Quaresma e saiu. O Major o seguiu e pergunto-o se ele havia lido o memorial. A resposta foi um sim. Policarpo falava a todo vapor, entusiasmado, sem ver o rosto do Marechal. Ao entrar no bonde ele diz: “Quaresma, você é um visionário”.
    Quaresma encontra com Albenaz, esse vinha triste e pensativo. Logo veio o assunto relacionado à Ismênia. O general deixou lagrimas precipitarem. O quadro da filha havia piorado, estava enferma e de cama. Ele já tinha feito de tudo na intenção de restituir a saúde à filha, porém essa pouco a pouco perdia o animo para viver. Médicos, curandeiros, espíritas, todos ele tinha procurado. Chamou um negro, velho e de barba branca. Dançou, pronunciava línguas estranhas, apertava um sapo que trazia na mão e passava o ramo na enferma. Nada. O estado da moça piorava a cada dia. Ninguém conseguia tirar da cabeça dela aquela obsessão pelo casamento. Quaresma tentou animar o companheiro, disse-o que iria levar o marido da afilhada, Dr. Armando, para vê-la. E para casa de Olga ele foi. No caminho pensava nos conflitos, nas pessoas que morriam por um Marechal que não desejava o progresso. Fatos dos conflitos vinham à mente naquele instante. Havia na Guarda Nacional certo homem de nome Ortiz, feroz. Conta que ao passar um pescador ele perguntou quanto era o peixe. Três mil reis, respondeu o pescador. Faça um menos? Dois mil e quinhentos. Leve-o para dentro de casa. O pobre homem fez o que ele mandou, voltou e ficou esperando o dinheiro. Ortiz responde: “Dinheiro? Vá cobrar do Floriano”.
    Ricardo Coração dos Outro fora efetivado, agora era Sargento. Andava triste porque não podia mais tocar seu violão.
    Quaresma vai à residência de Olga e pede ao marido dela que vá a morada do amigo Albenaz para ver se tinha uma solução para o caso de Ismênia. Policarpo pensa em tirar uma folga e ir a fazenda ver a irmã e seu empregado Anastácio. Frustrou-se ao saber que iria guiar seu batalhão em uma empreitada. Dr. Armando vai visitar Ismênia, como todos os outros também não consegue restabelecer a saúde da moça. Dona Maricota vive a esperança de ver a filha curada. Ismênia em um momento de lucidez pede à mãe que quando vier a morrer que a enterrasse com o vestido de noiva que guardara para o casamento. Certo dia, ao ver a porta do seu guarda-vestidos aberta, olhou e deparou-se com seu vestido de noiva, levantou e o vestiu. Sentiu uma leve tontura e caiu sobre a cama. No velório o pessoal que acompanhava o féretro chorava e soltava muitos porquês. Quaresma observava aquela cena com ar estranho; as sepulturas nesse momento derradeiro da vida humana andavam lado a lado, pobres misturados com ricos, umas belas outras nem tanto, dentro apenas lama, rastos daqueles que por aqui passaram. Não via nenhuma tumulo de alguém famoso, todos enterrados ali levavam consigo suas débeis existências. A pobre moça descia ao chão sem nada de importante deixar para esse mundo. O carro funerário chega. O chororó aumenta. Os cavalos partem levando o caixão e nele o corpo de Ismênia. O povo segue-o até o cemitério. Enquanto o cortejo passava as janelas se abriam e os curiosos observavam atentos.
    A chácara de Policarpo aos poucos retornava ao seu estado de outrora, desleixe e pobreza. As formigas voltaram com ardor a devorar o que achava em seus caminhos. O mato que não servia a alimentação dos insetos tomava os espaços. Pouco ou quase nada produzia. A irmã Adelaide ficara só, foram-se os momentos de prosa com a Sinhá Chica, essa vivia no mundo dos feitiços, das conversas com os entes do além, ela era tão popular quanto o médico Caldas. Quando um não resolvia corria logo ao outro. A pobreza acompanhava a negra que tinha poder maior do que o do vigário. Calda atendia mais a classe alta, Chica, a pobre. Quaresma de tempo em tempo escrevia cartas a irmã que sempre respondia muito chorosa a implorar pela sua volta. Uma carta chegou escrita pelo irmão: “Estava ferido. Havia matado. Deseja pedir perdão, mas não sabia a quem. Ricardo estava em estado físico pior que o dele, porém ele estava com o espírito afundado na lama. Sonhava com o fim dos conflitos para regressar ao Sossego. Seu sonho foi frustrado e morto. Via os colegas buscarem algo material ou um status. Sentia todas as dores. Estava arrependido de ter ido à guerra”.
    O conflito chegou ao fim. Uma esquadra vinda de Recife decretou a vitória de Floriano. Clarimundo falece e por ser político recebe muitos amigos e curiosos no seu funeral. Muitos queriam apenas deixar seu nome no livro ou sair em algum jornal.
    Policarpo melhora e é designado ao posto de carcereiro. Segue seu destino com uma dose alta de repugnância. Suas dores espirituais agigantaram. Não conseguia olhar nos olhos dos detentos, carecia de alguém para conversar. Certa noite não conseguia dormir, quando o sono veio foi desperto por um inferior. Um oficial do Itamarati veio buscar a turma do Boqueirão. Quaresma ao presenciar tamanha carnificina resolveu escrever um texto e remetê-lo ao Marechal Floriano. Foi preso. Grande desilusão sofria ao perceber que havia perdido toda a existência em prol de um sonho ou utopia. Lembrava dos estudos. Questionava a si mesmo qual a valia daqueles estudos. Saber os nomes dos rios. Gloriar os grandes homens. Dizer aos quatro cantos a bonança da sua pátria. Derrotado e preso iria morrer e não teria sequer um amigo ou ente no funeral. A política sempre fora a mesma. O governo usava da força para oprimir e impo-lhe maior poder. Sabia que jamais voltaria a rever sua afilhada, sua irmã, seu empregado Anastácio e o grande amigo Ricardo Coração dos Outros. Ele não sabia que Ricardo corria aos quatro cantos na tentativa de salva-lo. Todos os antigos amigos viravam-lhe as costas estavam preocupados em galgar privilégios com o novo governo. A guerra tirou de Coração dos Outros a alegria que cantava no outrora. Tudo agora era seco e sem flor. Lembrou-se de Olga. Foi à residência da moça na tentativa de convencê-la a ir ver o padrinho. Olga discute com o marido e vai tentar falar com o Marechal. Não conseguiu e falou com um secretario de Floriano a respeito de Quaresma, foi insultada. Saiu pela rua que há pouco tempo um índio possuía os espíritos de dez mil inimigos. Olhou tudo a sua volta e pensou: “Esperemos mais”. Seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.

    Nosso ilustre escritor Lima Barreto escreveu, não apenas um romance mais um livro que nos mostra uma face daquela remota pátria, onde alguns possuíam sonhos angélicos, enquanto a maioria se contentava a vencer a custa dos outros. Olhando-se bem ao nosso presente me deparo a um país, não igual, pois o progresso tecnológico deu grande impulso modificando o ambiente, todavia semelhante ao Brasil mencionado no livro. A obra não nos deixa claro se Quaresma falecera ou não; o fim, porém nos leva a relembrar os grandes mártires da nossa história. Os justos e bons são sempre oprimidos pela arrogância e insensatez dos injustos e maus. Tudo perece e logo uma nova geração germina das cinzas, são frutos idênticos as ideologias da semente que o tornou; neste meio ora e outra há uma querida mutação, nesta fase estranha é onde surgem os grandes vultos humanos: Jesus, Ghandi, Madre Tereza de Calcutá, e por que não, com menor significado, nosso Policarpo Quaresma.

    Por: Luiz Carlos Marques Cardoso.
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